{"id":6234,"date":"2020-04-17T19:22:22","date_gmt":"2020-04-17T22:22:22","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufla.org.br\/site\/?p=6234"},"modified":"2021-03-22T22:45:01","modified_gmt":"2021-03-23T01:45:01","slug":"coronavirus-e-a-crise-do-capital-a-defesa-da-vida-antes-do-lucro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adufla.org.br\/site\/noticias\/coronavirus-e-a-crise-do-capital-a-defesa-da-vida-antes-do-lucro\/","title":{"rendered":"Coronav\u00edrus e a crise do capital: a defesa da vida antes do lucro"},"content":{"rendered":"<p><strong>Em plena crise devido \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, o mundo viu crescer as tens\u00f5es entre pol\u00edticos, cientistas e intelectuais por um vi\u00e9s inesperado:&nbsp;&nbsp;a defesa da vida antes do lucro<\/strong><\/p>\n<p>Crises s\u00e3o tamb\u00e9m momentos de agudiza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es que atormentam a vida social sob o capitalismo. A pandemia do novo coronav\u00edrus \u2013 ao que sabemos at\u00e9 aqui \u2013 nasceu na China, pa\u00eds superpopuloso que, diante do temor de expans\u00e3o da doen\u00e7a em propor\u00e7\u00f5es gigantescas e descontroladas, tomou rigorosas medidas de isolamento social. Tais medidas envolveram a interrup\u00e7\u00e3o total das atividades num dos maiores centros industriais do pa\u00eds, Hubei, com mais de 60 milh\u00f5es de habitantes, e de sua capital Wuhan. Essa decis\u00e3o, em pleno per\u00edodo de tens\u00f5es crescentes com os Estados Unidos, com seguidas provoca\u00e7\u00f5es de Trump, impactou o mundo por um vi\u00e9s inesperado:&nbsp;<strong>a defesa da vida antes do lucro<\/strong>.<\/p>\n<p>Os governos dos pa\u00edses centrais \u2013 com raras e honrosas exce\u00e7\u00f5es \u2013 consideraram inadmiss\u00edvel tal disjuntiva &#8211; defender a vida em vez do lucro &#8211; e tentaram por todos os meios evitar interrup\u00e7\u00f5es ou redu\u00e7\u00f5es no processo de extra\u00e7\u00e3o de mais-valor. Isso ocorreu na Fran\u00e7a, na It\u00e1lia, na Inglaterra e nos Estados Unidos e agora est\u00e1 acontecendo no Brasil. At\u00e9 que a viol\u00eancia da pandemia expusesse a fragilidade dos sistemas de sa\u00fade, desfinanciados, sem os insumos necess\u00e1rios para realizar testes nas popula\u00e7\u00f5es, sem equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI), com escassez de leitos, de respiradores e de equipes de sa\u00fade treinadas. Em meio \u00e0 cat\u00e1strofe sanit\u00e1ria, voltaram atr\u00e1s tardiamente, e promoveram maior isolamento f\u00edsico, mas todos, sem exce\u00e7\u00e3o, despreocupam-se com os trabalhadores de in\u00fameros setores \u2013 e n\u00e3o apenas os essenciais &#8211; que prosseguem em atividade sob amea\u00e7a de demiss\u00e3o. E, durante todo esse tempo, as popula\u00e7\u00f5es gritam dos balc\u00f5es e janelas em defesa da vida contra o lucro.<\/p>\n<p>Para falar sobre a crise que o capital enfrenta de forma evidenciada durante a pandemia da Covid-19, conversamos com V\u00edrginia Fontes, historiadora e doutora em Filosofia pela Universit\u00e9 de Paris X, Nanterre (1992). Atualmente a docente integra o NIEP-MARX (N\u00facleo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Marx e o marxismo) e integra diversos conselhos editoriais no pa\u00eds e no exterior.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN: Professora, qual a rela\u00e7\u00e3o entre a crise do capital e a forma como a pandemia da Covid-19 est\u00e1 se desenvolvendo e atingindo o mundo todo?<\/strong><\/p>\n<p>VF: Gostaria de separar dois movimentos: um, o da crise regular do capital, mais uma vez por superprodu\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, por excesso de extra\u00e7\u00e3o de mais valor e de lucratividade do pr\u00f3prio capital. H\u00e1 enormes massas de capital que encontram dificuldades para se valorizar na propor\u00e7\u00e3o fara\u00f4nica que pretendem. Essas crises s\u00e3o recorrentes e v\u00eam sendo a cada dia mais devastadoras para as popula\u00e7\u00f5es e os trabalhadores, e resultam desgra\u00e7adamente da pr\u00f3pria expans\u00e3o do capitalismo. Entre 2008 e 2009 nos Estados Unidos, em 2012 na Europa, e ao longo desse per\u00edodo em muitos pa\u00edses (como no Brasil), os governos doaram bilh\u00f5es para os capitalistas, mas sacrificaram pesadamente suas classes trabalhadoras. Salvaram os capitais para que eles avan\u00e7assem com ainda maior ferocidade sobre os trabalhadores no mundo inteiro, extraindo mais-valor de maneira brutal pela generaliza\u00e7\u00e3o da uberiza\u00e7\u00e3o, continuando a expropriar direitos, apoderando-se dos fundos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Antes de falar da crise sanit\u00e1ria, \u00e9 preciso lembrar que j\u00e1 est\u00e1vamos ingressando numa nova crise capitalista, de novo por superprodu\u00e7\u00e3o de capitais, pois o enorme volume de capitais, sob forma de t\u00edtulos ou de dinheiro, que precisam se valorizar, j\u00e1 estavam implodindo a vida social. Longe da falaciosa vers\u00e3o de que \u201cv\u00ednhamos crescendo e o v\u00edrus pode atrapalhar\u201d, apresentada por Trump e por Bolsonaro, a crise j\u00e1 estava em curso, e era anunciada pelos pr\u00f3prios economistas burgueses. Ora, se o capital promove crises quase permanentes, uma verdadeira \u201ccrise do capital\u201d ocorre quando as massas irrompem na hist\u00f3ria e bloqueiam sua capacidade de recompor-se. Revolucionam a exist\u00eancia. D\u00e3o um basta a essa forma de economia e a esse modo de ser b\u00e1rbaro e truculento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN: Nos \u00faltimos anos a extrema direita se consolidou no Brasil e no mundo. Como o avan\u00e7o desse movimento se conecta a expans\u00e3o desordenada do capital?<\/strong><\/p>\n<p>VF: No mundo contempor\u00e2neo, diversos arranjos protofascistas vinham se constituindo, inclusive no p\u00f3lo central do capitalismo contempor\u00e2neo, os Estados Unidos. Desde a elei\u00e7\u00e3o de Ronald Reagan, cresceram as manifesta\u00e7\u00f5es de uma extrema direita (alt-right) supremacista branca e racista, antifeminista, anti-trabalhadores, encarceradora e colonizadora. Esse endurecimento chega a seu ponto m\u00e1ximo com a elei\u00e7\u00e3o de Donald Trump, uma caricatura supremacista, de um nacionalismo exibicionista e belicoso e, finalmente, com a elei\u00e7\u00e3o do protofascista Jair Bolsonaro, no Brasil. N\u00e3o obstante as demonstra\u00e7\u00f5es de trucul\u00eancia de ambos, a economia dos dois pa\u00edses estava dando sinais de dificuldades. No caso do Brasil, a crise iniciada em 2015 jamais foi superada, apesar de seus promotores \u2013 grande burguesia, seus ac\u00f3litos pol\u00edticos, pastores venais, militares e paramilitares, ju\u00edzes a soldo &#8211;&nbsp; usarem de enorme viol\u00eancia, retirando direitos de maneira brutal e lan\u00e7ando na precariza\u00e7\u00e3o quase a metade dos trabalhadores, totalmente desprotegidos. N\u00e3o podemos esquecer da brutalidade policial francesa contra os coletes amarelos, da trucul\u00eancia da pol\u00edcia chilena cegando manifestantes populares que enfrentaram o medo e foram \u00e0s ruas contra a perman\u00eancia da pol\u00edtica econ\u00f4mica ditatorial, da criminosa atitude policial e miliciana contra o governo de Evo Morales\u2026<\/p>\n<p>Essas s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es&nbsp;<strong>antes<\/strong>&nbsp;da pandemia. A pr\u00f3pria expans\u00e3o do capital em sua desordenada e devastadora rela\u00e7\u00e3o com a natureza vem agudizando permanentemente a possibilidade de pandemias, e j\u00e1 h\u00e1 uma enorme quantidade de estudos a esse respeito \u2013 confinamento de animais, tratados com doses massivas de medicamentos; altera\u00e7\u00e3o do uso do solo e do ambiente por monoculturas gigantescas, massivamente impregnadas de agrot\u00f3xicos etc. Todos os dias as m\u00eddias propriet\u00e1rias relembram das \u00faltimas grandes epidemias \u2013 Ebola, SARS, MERS, H1N1 etc, mas \u201cesquecem\u201d de dizer que foram gestadas pelo pr\u00f3prio capitalismo. Ainda a destacar, o avan\u00e7o das expropria\u00e7\u00f5es de direitos sociais incidiu diretamente na sa\u00fade, privatizando parcelas expressivas das pol\u00edticas universais, precarizando trabalhadores, transferindo boa parte da sa\u00fade p\u00fablica para m\u00e3os empresariais \u00e1vidas de lucro, al\u00e9m da destina\u00e7\u00e3o crescente de recursos p\u00fablicos para o setor privado.&nbsp; Esta \u00e9 portanto uma pandemia totalmente acoplada \u00e0 crise da vida social provocada pela expans\u00e3o do capital e do capitalismo, sem falar da profunda internacionaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O capital precisa se opor \u00e0 disjuntiva verdadeira, \u00e0 exig\u00eancia que se generalizou, e que prega que a vida est\u00e1 acima do lucro. Por isso, cria a falsa disjuntiva da defesa da sa\u00fade contra a \u201ceconomia\u201d. Essa \u00e9 a express\u00e3o mais direta da luta de classes em tempos de pandemia.<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN: Essa pode ser uma oportunidade para escancarar a fal\u00eancia do modelo neoliberal e do Estado m\u00ednimo para o social?<\/strong><\/p>\n<p>VF: Mais uma vez, como fizeram em 2008 e em 2012, os governos capitalistas despejam trilh\u00f5es de d\u00f3lares para os propriet\u00e1rios de capital, numa nega\u00e7\u00e3o \u00f3bvia e repetida (posto fazerem isso regularmente fora dos olhares do p\u00fablico) da prega\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica que repetiram todos os dias, do \u2018ajuste fiscal\u2019 e do controle da d\u00edvida p\u00fablica. A hipocrisia agora dispensa v\u00e9us.&nbsp; N\u00e3o destinam tais recursos para os trabalhadores e nem para as pol\u00edticas de cunho social. A discuss\u00e3o sobre o Estado \u00e9 complexa e longa, e vou tentar abreviar.<\/p>\n<p>A expans\u00e3o do que denominei capital-imperialismo envolveu uma interconex\u00e3o desigual entre burguesias diversas na propriedade do capital, altamente internacionalizada. Mas envolveu tamb\u00e9m, como precocemente assinalou Antonio Gramsci, altera\u00e7\u00f5es nas formas de organiza\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o capitalista, pelo crescente papel de lutas pelo convencimento, levadas a efeito tanto pelas organiza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores, como do empresariado, atrav\u00e9s de partidos, sindicatos, jornais (m\u00eddia em geral), igrejas, associa\u00e7\u00f5es diversas (sem fins lucrativos) etc. Para Gramsci, Estado e sociedade civil (e seus aparelhos de hegemonia), como em Marx, constituem uma unidade. A cultura e a sociabilidade se converteram em terreno ainda mais acirrado de antagonismo social. Essas formas organizativas, n\u00e3o obrigat\u00f3rias, intensificaram disputas no pr\u00f3prio interior dos Estados capitalistas, para onde dirigem suas reivindica\u00e7\u00f5es. Mas tamb\u00e9m \u00e9 do Estado que emanam, sob a forma de uma \u2018universalidade truncada\u2019, as modalidades de convencimento constru\u00eddas desde a sociedade civil, que podem assumir uma dimens\u00e3o mais popular quando avan\u00e7am as lutas dos trabalhadores (amplia\u00e7\u00e3o de direitos, reconhecimento de reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas populares) ou, ao contr\u00e1rio, assumir uma dimens\u00e3o manipulat\u00f3ria e regressiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN: Como a domina\u00e7\u00e3o de classe se organizou para enfrentar a sistematiza\u00e7\u00e3o de luta da classe trabalhadora?<\/strong><\/p>\n<p>VF: A domina\u00e7\u00e3o de classes se organizou diretamente para enfrentar as formas organizativas dos trabalhadores. Ele entrela\u00e7a os interesses patronais e empresariais numa rede que vai al\u00e9m do estreito limite das pr\u00f3prias empresas e que se apresenta como apartid\u00e1rio, assumindo fei\u00e7\u00f5es nacionais e, na grande maioria dos casos, apoiadas e integrando associa\u00e7\u00f5es cong\u00eaneres internacionais. Assumem diferentes formatos, desde a defesa de interesses patronais setoriais (gerais, como bancos, com\u00e9rcio, servi\u00e7os; ou espec\u00edficos, como a ind\u00fastria farmac\u00eautica ou de m\u00e1quinas), passando por agrupamentos de grandes blocos de interesses (como por exemplo a ABAG, no caso brasileiro que re\u00fane desde a rede Globo at\u00e9 bancos, grandes empresas propriet\u00e1rias de terras e empresas brasileiras e estrangeiras de insumos e agrot\u00f3xicos; ou o F\u00f3rum de Davos, no cen\u00e1rio internacional). Mas al\u00e9m disso, constitu\u00edram tamb\u00e9m outras duas formas, uma intelectual e outra \u2018social\u2019. Na primeira, a tentativa de bloquear o conhecimento cr\u00edtico produzido de maneira universal, atrav\u00e9s de entidades de ensino e educa\u00e7\u00e3o com base unicamente empresarial, vis\u00edvel nos&nbsp;<em>Master Business of Administration (MBAs)<\/em>, passando por&nbsp;<em>think tanks<\/em>&nbsp;que se arvoram a \u2018fala autorizada\u2019; e na segunda, a difus\u00e3o de um suposto capitalismo filantr\u00f3pico, voltado diretamente para os setores populares. Todos visam impedir conquistas efetivamente universais e para tanto contam com grandes escrit\u00f3rios de advocacia, que formulam, incessantemente, legisla\u00e7\u00f5es privatizantes, que atuam para contornar a lei e as exig\u00eancias constitucionais. Sua atua\u00e7\u00e3o conjunta foi agressiva, mas sob uma novil\u00edngua que os apresentava como arautos de uma atua\u00e7\u00e3o para os pobres que visava\u2026 mant\u00ea-los pobres e silentes. N\u00e3o por acaso, essa era tamb\u00e9m a pol\u00edtica conduzida pelo Banco Mundial.<\/p>\n<p>Essa estrat\u00e9gia assegurou um crescimento de burguesias perif\u00e9ricas, mas mantendo-as estreitamente atadas ao capital-imperialismo tanto pelos elos de co-participa\u00e7\u00e3o em diversas formas de propriedade (pelos investimentos externos e pela exporta\u00e7\u00e3o de capitais de burguesias secund\u00e1rias) quanto pela permanente instiga\u00e7\u00e3o originada dos aparelhos de hegemonia de alto v\u00f4o internacional.<\/p>\n<p>&nbsp;A meu ju\u00edzo, somente \u00e9 poss\u00edvel compreender o que muitos denominam como \u2018neoliberalismo\u2019 se analisamos a intensa atua\u00e7\u00e3o dessas classes dominantes nos cen\u00e1rios nacional e internacional por meio dos organismos semi-p\u00fablicos voltados para a reprodu\u00e7\u00e3o do capital (BM, FMI, OMC, dentre outros) e pela amplia\u00e7\u00e3o dessa malha de aparelhos de hegemonia que, ao passo em que coordenavam as a\u00e7\u00f5es empresariais, agiam para desbaratar e desorganizar internacionalmente as classes trabalhadoras. O empresariado duplicou sua rede de rela\u00e7\u00f5es no interior dos Estados, al\u00e9m de lan\u00e7ar teias expressivas para os setores populares, ao mesmo tempo em que capturava os recursos p\u00fablicos&nbsp;<em>sociais<\/em>&nbsp;para geri-los privadamente. Nesse processo, partidos originados das classes trabalhadoras foram engolidos, transformados em \u2018esquerdas para o capital\u2019, convencidos da filantropia empresarial atrav\u00e9s de gordas retribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para apresentar como essa forma de organiza\u00e7\u00e3o de classes foi devastadora para os setores populares. No entanto, as massas trabalhadoras n\u00e3o vivem de convencimento, mas de vida concreta e, nela, as condi\u00e7\u00f5es pioravam. Agora, sem direitos e sem sequer contratos de trabalho. E o que \u00e9 pior, com suas organiza\u00e7\u00f5es, criadas com tanto sacrif\u00edcio, oferecendo-se a servi\u00e7o do capital.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN: Para a senhora, as contradi\u00e7\u00f5es do capital-imperialismo est\u00e3o expostas e, em parte resultam do seu pr\u00f3prio sucesso, que fragilizou as institui\u00e7\u00f5es representativas burguesas?<\/strong><\/p>\n<p>VF: De maneira similar \u00e0s crises resultantes da excessiva extra\u00e7\u00e3o de mais-valor e do excesso de lucro, com sua acumula\u00e7\u00e3o especulativa, a malha empresarial ao devastar as conquistas sociais promove crises pol\u00edticas recorrentes, o que resultou em gigantescas manifesta\u00e7\u00f5es populares que crescem desde o in\u00edcio do S\u00e9culo XXI \u2013 as \u2018primaveras\u2019 \u00e1rabes, as revoltas na Fran\u00e7a ou no Chile, dentre outras.<\/p>\n<p>As contradi\u00e7\u00f5es t\u00eam ainda outro vi\u00e9s: burguesias subalternas criadas sob o guarda-chuva imperial dos Estados Unidos pretendiam ingressar no clube dos dominantes, sem alterar as regras do jogo, o que foi expresso pelo BRICS, composto por pa\u00edses subalternos cujas classes dominantes come\u00e7avam a se expandir seguindo o modelo constru\u00eddo e imposto pelos preponderantes. N\u00e3o pretendiam alterar as regras do jogo, queriam participar mais plenamente.&nbsp; No entanto, apenas essa perspectiva abriu tens\u00f5es insuport\u00e1veis para os grupos dominantes, especialmente para os Estados Unidos, abrindo-se novas fric\u00e7\u00f5es inter-imperialistas, direcionadas contra a China.<\/p>\n<p>A amplia\u00e7\u00e3o do Estado que Gramsci analisou, e que alguns supuseram ser capaz de avan\u00e7ar na dire\u00e7\u00e3o de um aumento da participa\u00e7\u00e3o popular em condi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, revelou-se uma verdadeira coagula\u00e7\u00e3o da democracia em quase todos os quadrantes do planeta. A manuten\u00e7\u00e3o do capitalismo vem exigindo doses m\u00faltiplas de viol\u00eancia, ao lado da potencializa\u00e7\u00e3o de formas de convencimento direcionadas para os processos eleitorais que s\u00e3o, na verdade, verdadeiras mil\u00edcias virtuais protofascistas.<\/p>\n<p>O Estado continua a ser o ref\u00fagio do capital. Nas atuais condi\u00e7\u00f5es de m\u00faltiplas crises \u2013 econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social, sanit\u00e1ria \u2013 as falas do governo brasileiro atrav\u00e9s de Paulo Guedes s\u00e3o esclarecedoras: justificam se afastar de sua pol\u00edtica padr\u00e3o de ajuste fiscal para derramar bilh\u00f5es de reais para o grande capital, seja para jogar o dinheiro pela janela ao tentar manter o valor do real; seja para que enormes massas de dinheiro p\u00fablico coagulem, ficando empo\u00e7adas nos bancos que avidamente as controlam; seja para facilitar a vida dos mega e grandes empres\u00e1rios, acenando tamb\u00e9m para os m\u00e9dios e, at\u00e9 mesmo, alguns pequenos capitalistas. Implodem mais uma vez seus dogmas, mas com a inten\u00e7\u00e3o expl\u00edcita de retom\u00e1-los adiante e prometem mais retirada de direitos, maior rebaixamento das condi\u00e7\u00f5es salariais e da vida dos trabalhadores. Longas reuni\u00f5es feitas pelo ministro por meios digitais com os empres\u00e1rios mostram a subordina\u00e7\u00e3o dos governantes \u00e0s classes dominantes e sua ojeriza \u00e0s popula\u00e7\u00f5es que eles pr\u00f3prios contribuem para fragilizar e tornar vulner\u00e1vel. Enquanto os recursos bilion\u00e1rios j\u00e1 chegaram a muitos bancos e empres\u00e1rios, est\u00e3o longe de ter algum encaminhamento consistente para os setores populares.<\/p>\n<p>Algo t\u00e3o brutal somente pode ser garantido pelo crescimento da viol\u00eancia, real e simb\u00f3lica. Ao mesmo tempo, os trabalhadores sabem que est\u00e3o abandonados, exigem sa\u00fade e recursos para cuidar da vida durante a pandemia. Ao contr\u00e1rio de assegurar a vida, o governo Bolsonaro joga para aumentar ainda mais o grau de explora\u00e7\u00e3o das grandes massas trabalhadoras. Para isso, vem contando com o apoio de suas cl\u00e1ssicas mil\u00edcias, assim como das For\u00e7as Armadas, que parecem dispostas a sair de seu papel de militares, para se converterem em policiais contra o pr\u00f3prio povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN: O governo brasileiro, assim como outros pa\u00edses, est\u00e1 injetando dinheiro para salvar empresas e bancos. Qual o impacto dessa medida? \u00c9 poss\u00edvel dizer que h\u00e1 um oportunismo nessa a\u00e7\u00e3o, uma vez que a crise antecede a pandemia?<\/strong><\/p>\n<p>VF: N\u00e3o s\u00f3 oportunismo, mas desfa\u00e7atez absoluta. Ali\u00e1s, essa desfa\u00e7atez come\u00e7a com a defer\u00eancia do super-ministro da economia, Paulo Guedes, frente \u00e0s entidades associativas empresariais e frente ao setores que lhe s\u00e3o caros, como o dos investidores, exemplificados pela XP Investimentos. Essa empresa lan\u00e7ou recentemente a\u00e7\u00f5es na Bolsa de Nova Yorque e acaba de ser denunciada nos Estados Unidos por comportamento n\u00e3o regular.&nbsp; Longas \u2018lives\u2019 (transmiss\u00f5es diretas abertas pela internet) permitem assistir ao ministro cercado de seus amigos empres\u00e1rios, a quem presta contas pessoalmente. Nenhum encontro p\u00fablico ou privado com sindicatos e associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores, com movimentos sociais ou suas organiza\u00e7\u00f5es. Um absoluto desprezo pelas grandes maiorias, para as quais destinou \u2013 segundo sua fala na live da XP \u2013 88 bilh\u00f5es, enquanto liberou 400 ou 500 bilh\u00f5es para o empresariado e, segundo ele, alguns bilh\u00f5es para a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>A exig\u00eancia e o clamor popular eram pela libera\u00e7\u00e3o urgente e imediata de recursos para assegurar a perman\u00eancia dos empregos, a n\u00e3o redu\u00e7\u00e3o salarial e a garantia da sobreviv\u00eancia dos trabalhadores informais sob condi\u00e7\u00f5es de pandemia. Era e ainda \u00e9 a reivindica\u00e7\u00e3o da vida antes do lucro. A op\u00e7\u00e3o deste governo foi a de distribuir a rodo recursos para o empresariado, e de embarreirar com firulas burocr\u00e1ticas a urgente distribui\u00e7\u00e3o de verba p\u00fablica para o setores sociais mais vulner\u00e1veis. Frente \u00e0s reivindica\u00e7\u00f5es crescentes, inclusive de setores m\u00e9dios, para que o governo Bolsonaro libere \u201cj\u00e1\u201d os recursos para os setores populares, ele retruca com o lucro contra a vida. Exige o retorno ao trabalho, custe o que custar aos trabalhadores. Estes dever\u00e3o trabalhar sem equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, levando e trazendo a contamina\u00e7\u00e3o pelas cidades afora, adoecendo e lotando os hospitais desequipados depois de d\u00e9cadas de subfinanciamento do Sistema \u00danico de Sa\u00fade, de privatiza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e de precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho tamb\u00e9m no \u00e2mbito dos trabalhadores da sa\u00fade.<\/p>\n<p>&nbsp;Este \u00e9 um governo que promove a cat\u00e1strofe. Joga com o que h\u00e1 de pior \u2013 ele pr\u00f3prio amea\u00e7a com a fome e o abandono para que os trabalhadores e trabalhadoras enfrentem o medo da doen\u00e7a e da morte e se joguem na produ\u00e7\u00e3o do lucro para o empresariado, engordado com os recursos p\u00fablicos e \u00e1vido para retirar ainda mais direitos e sal\u00e1rios de seus empregados.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n<p><strong>ANDES-SN:<\/strong>&nbsp;<strong>Qual Estado precisamos para enfrentar esse momento de crise?<\/strong><\/p>\n<p>VF: De maneira imediata, precisamos de um Estado capaz de recompor plenamente o sistema de sa\u00fade, de destinar recursos p\u00fablicos para a sa\u00fade p\u00fablica, universal e gratuita, garantidora da equidade e igualdade sociais. O SUS precisa ser, finalmente, implantado, o que jamais ocorreu plenamente. Para tanto, \u00e9 necess\u00e1rio recompor e reconverter a estrutura produtiva, que deve dirigir-se para a produ\u00e7\u00e3o dos bens urgentes para a sa\u00fade p\u00fablica e, na sequ\u00eancia, para assegurar a qualidade de vida da popula\u00e7\u00e3o. Para que isso ocorra, \u00e9 tamb\u00e9m urgente a destina\u00e7\u00e3o \u00fanica de recursos p\u00fablicos para a educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, que vem sendo sangrada em grande escala n\u00e3o apenas pelas empresas de vendas de pacotes educativos, mas por aparelhos privados de hegemonia empresariais que capturam as verbas p\u00fablicas, formulam os programas educacionais em todos os n\u00edveis (municipal, estadual e federal) e procuram transformar a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de p\u00fablico, para rebaix\u00e1-lo a uma gest\u00e3o privada.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente acabar com a Emenda Constitucional 95, a emenda da morte, e reverter todos os recursos para os direitos sociais. \u00c9 preciso suspender o pagamento da d\u00edvida criminosa e especulativa, anulando tal d\u00edvida. Jamais soubemos no que foram aplicados tais recursos. Com isso, destinar os recursos para garantir saneamento b\u00e1sico \u2013 e chega a ser vergonhoso mais uma vez exigir saneamento b\u00e1sico, algo que reivindicamos h\u00e1 um s\u00e9culo! Garantir \u00e1gua corrente e energia el\u00e9trica a todos os rinc\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Isso nos leva a enfrentar e reconverter a estrutura produtiva atual, pois est\u00e1 voltada para a devasta\u00e7\u00e3o da natureza e da vida, nos campos e nas cidades. Vale lembrar os crimes cometidos pela minera\u00e7\u00e3o, a monocultura transg\u00eanica e encharcada de agrot\u00f3xicos, o genoc\u00eddio que vem sendo cometido contra os ind\u00edgenas, os quilombolas e os camponeses que resistem a essa barb\u00e1rie. Vale n\u00e3o esquecer dos trabalhadores uberizados nas grandes capitais, dos entregadores de bicicleta, dos trabalhadores de telemarketing, das vendedoras e trabalhadoras sem reconhecimento ou direitos. \u00c9 preciso uma nova forma de sociometabolismo, reconstruindo uma rela\u00e7\u00e3o entre seres sociais e natureza capaz de assegurar os bens necess\u00e1rios \u00e0 vida sem a exaust\u00e3o do planeta, de suas \u00e1guas, vegeta\u00e7\u00e3o e fauna. E sem a exaust\u00e3o dos trabalhadores. Um Estado que assegure o controle dos processos produtivos aos que efetivamente produzem, sabedores que os la\u00e7os que unem os trabalhadores na atualidade n\u00e3o se limitam mais ao espa\u00e7o fabril, e conectam todos aqueles que vivem do seu pr\u00f3prio trabalho. \u00c9 preciso tornar p\u00fablicas todas as \u00e1guas, desfazendo as iniciativas privatizantes levadas a efeito pelo Estado-para-o-capital. Precisamos de um Estado diretamente controlado pelas grandes massas.<\/p>\n<p>Come\u00e7ar\u00edamos ent\u00e3o a poder pensar numa verdadeira democracia, onde a liberdade \u00e9 a possibilidade de ir al\u00e9m da vida destinada ao trabalho e \u00e0 necessidade. No mundo do capital, s\u00f3 s\u00e3o livres os poderosos e os seus herdeiros bilion\u00e1rios. A grande massa da popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 escravizada pela necessidade mais imperiosa, que a impele a vender sua for\u00e7a de trabalho mesmo se arriscando \u00e0 morte. A liberdade come\u00e7a exatamente ali onde a necessidade se reduz. As contradi\u00e7\u00f5es geradas pelas m\u00faltiplas crises que estamos atravessando s\u00e3o poderosas. A resposta do grande empresariado brasileiro tem sido avan\u00e7ar nos recursos p\u00fablicos e distribuir menos que migalhas. Mas, embora tenham eleito um protofascista e embora as mil\u00edcias reais e virtuais sigam agindo, a vida real \u00e9 mais poderosa e as contradi\u00e7\u00f5es agora ficar\u00e3o expostas, vis\u00edveis e dolorosas.<\/p>\n<p><strong>A vida acima do lucro diz o que precisa ser dito.<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><strong>Fonte: ANDES -SN<\/strong><\/em><\/p>\n<p><em>*As opini\u00f5es contidas nesta entrevista s\u00e3o de inteira responsabilidade dos entrevistados e n\u00e3o necessariamente correspondem ao posicionamento pol\u00edtico deste Sindicato<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em plena crise devido \u00e0 pandemia do novo coronav\u00edrus, o mundo viu crescer as tens\u00f5es entre pol\u00edticos, cientistas e intelectuais por um vi\u00e9s inesperado:&nbsp;&nbsp;a defesa da vida antes do lucro Crises s\u00e3o tamb\u00e9m momentos de agudiza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es que atormentam a vida social sob o capitalismo. 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