{"id":5717,"date":"2019-08-06T16:12:30","date_gmt":"2019-08-06T19:12:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufla.org.br\/site\/?p=5717"},"modified":"2021-03-22T22:45:35","modified_gmt":"2021-03-23T01:45:35","slug":"programa-future-se-desconhece-a-propria-realidade-das-universidades-avaliam-professores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adufla.org.br\/site\/noticias\/programa-future-se-desconhece-a-propria-realidade-das-universidades-avaliam-professores\/","title":{"rendered":"Programa &#8220;Future-se&#8221; desconhece a pr\u00f3pria realidade das universidades, avaliam professores"},"content":{"rendered":"<p><em>Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, Renato Dagnino, Wagner Rom\u00e3o e Rog\u00e9rio Bezerra da Silva mostram como o programa Future-se, lan\u00e7ado pelo governo federal, est\u00e1 desconectado da realidade n\u00e3o s\u00f3 das universidades brasileiras, mas de outras na\u00e7\u00f5es, principalmente dos Estados Unidos, que t\u00eam grande desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Veja o artigo:<\/em><\/p>\n<p><strong>Future-se e o aporte de recursos de empresas<\/strong><\/p>\n<p>Em 17 de julho, O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o lan\u00e7ou o que parece ser o n\u00facleo da pol\u00edtica cognitiva (de educa\u00e7\u00e3o e de ci\u00eancia, tecnologia e inova\u00e7\u00e3o) da gest\u00e3o de Jair Bolsonaro: o programa Future-se. Este texto procura complementar as v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es que t\u00eam surgido desde ent\u00e3o. Ele foca a sua inten\u00e7\u00e3o em equacionar o que considera o principal problema das institui\u00e7\u00f5es federais de ensino superior (IFES) \u2013 seu despropositado e insustent\u00e1vel custo para o Estado \u2013 mediante a capta\u00e7\u00e3o de recursos das empresas para pesquisa e desenvolvimento (P&amp;D).&nbsp;<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o, como sabe quem analisa nossa pol\u00edtica cognitiva, n\u00e3o \u00e9 nova. O que \u00e9 novo \u00e9 o contexto em que ela reaparece, marcado pela radical \u201coessisa\u00e7\u00e3o\u201d (OS) das universidades p\u00fablicas, que vem sendo h\u00e1 muito concebida. Nosso objetivo \u00e9 avaliar a probabilidade de ocorr\u00eancia do c\u00edrculo virtuoso, que o programa idealiza, mediante a an\u00e1lise dos trechos (entre aspas) apresentados no Future-se.<\/p>\n<p>A proposta do governo \u00e9 que as IFES diminuam seu custo mediante a \u201ccapta\u00e7\u00e3o de recursos pr\u00f3prios\u201d que adviriam de uma \u201cmaior intera\u00e7\u00e3o com o setor empresarial para atividades de inova\u00e7\u00e3o\u201d. Essencial para isso seria a \u201ccria\u00e7\u00e3o de um ecossistema de inova\u00e7\u00e3o pujante nas IFES, possibilitando que trabalhem com maior foco em inova\u00e7\u00e3o e em parceria com empresas\u201d. O que seria alcan\u00e7ado com um maior \u201cest\u00edmulo \u00e0 atividade de inova\u00e7\u00e3o com a instala\u00e7\u00e3o de centros de pesquisa e inova\u00e7\u00e3o e de parques tecnol\u00f3gicos\u201d de modo a gerar na interface com a sociedade um \u201cambiente de neg\u00f3cios favor\u00e1vel \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de&nbsp;startups\u201d.<\/p>\n<p>Fechando o c\u00edrculo virtuoso que resolveria o problema, se estabeleceriam \u201cparcerias\u201d com as empresas proporcionando \u00e0s IFES \u201calavancagem de recursos privados para inova\u00e7\u00e3o por meio de projetos de P&amp;D\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>Para analisar a viabilidade desse c\u00edrculo virtuoso, \u00e9 necess\u00e1rio come\u00e7ar pela sua cena final que retrata as empresas localizadas no Brasil como interessadas em financiar \u201cprojetos de P&amp;D\u201d nas IFES. E o recurso a elas endere\u00e7ado como capaz de reduzir significativamente seu custo.<\/p>\n<p>Vamos iniciar indicando que, a julgar pela evid\u00eancia emp\u00edrica dispon\u00edvel e ao contr\u00e1rio do suposto pelo programa, a import\u00e2ncia do resultado cognitivo imediato (\u201cintang\u00edvel\u201d ou \u201cdesincorporado\u201d) da pesquisa universit\u00e1ria para a empresa \u00e9, em todo o mundo, muito pequena.&nbsp;<\/p>\n<p>Fundamenta essa afirma\u00e7\u00e3o a realidade observada nos EUA. Uma boa maneira de avaliar essa import\u00e2ncia \u00e9 a parcela do disp\u00eandio em P&amp;D das empresas que \u00e9 alocada em projetos em parceria com universidades e institutos de pesquisa \u00e9 fornecida pela National Science Foundation. Segundo ela, essa parcela \u00e9 de apenas 1%.<\/p>\n<p>Casualmente, de acordo com a mesma fonte, o quanto custa (ou se gasta) com o ensino superior naquele pa\u00eds \u00e9 aproximadamente igual ao disp\u00eandio das empresas em P&amp;D: apenas 1% do que as universidades precisam para se manter, aquilo que elas arrecadam com contratos de pesquisa com as empresas. Claro que h\u00e1 exce\u00e7\u00f5es, a mais not\u00e1vel \u00e9 do MIT, onde o valor desses contratos alcan\u00e7a mais de 15% do seu custo.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<p>A realidade brasileira \u00e9 muito parecida com a dos Estados Unidos no que se refere ao escasso interesse de empresas em realizar parcerias para P&amp;D com universidades. Segundo a PINTEC-IBGE, no per\u00edodo 2006 a 2008, em que as empresas aumentavam sua produ\u00e7\u00e3o e lucro, o sal\u00e1rio aumentava e explodia o recurso disponibilizado para a inova\u00e7\u00e3o empresarial, apenas 7% das empresas inovadoras contataram universidades e institutos de pesquisa em busca de resultados de pesquisas. E, destas, 70% consideravam essa rela\u00e7\u00e3o de baixa import\u00e2ncia para sua estrat\u00e9gia de inova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui v\u00e3o as semelhan\u00e7as: a import\u00e2ncia dos contratos de pesquisa com a empresa para o financiamento da nossa universidade \u00e9, seguramente, muito menor do que nos EUA.&nbsp;<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que ingenuamente dizem h\u00e1 anos os que elaboram nossa pol\u00edtica cognitiva, n\u00e3o \u00e9 por n\u00e3o ter a \u201cfun\u00e7\u00e3o P&amp;D internalizada\u201d, que as empresas recorreriam \u00e0 universidade para se beneficiar do resultado desincorporado da pesquisa ali realizada. H\u00e1 muita coisa escrita por analistas dessa pol\u00edtica que invalida essa ideia do senso comum mal informado.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, para quem prefere evid\u00eancias \u00e0 \u201cteoria\u201d, cabe examinar o que ocorre numa das nossas universidades que mais recebe recursos por essa via. Na Unicamp, estimamos a participa\u00e7\u00e3o dos recursos para pesquisa proveniente das empresas no seu or\u00e7amento em menos de 1,5%: dez vezes menos do que capta o MIT que l\u00e1 \u201ccompete\u201d com muitos outros \u201cpesos pesados\u201d. Fica aos que conceberam o programa, uma vez que o n\u00famero correspondente \u00e0 Unicamp (1,5%) mal ultrapassa o valor m\u00e9dio (1%) estimado para os EUA, divulgar os cent\u00e9simos dez por cento que corresponde ao nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>O mostrado at\u00e9 aqui \u00e9 suficiente para evidenciar empiricamente a escassa viabilidade daquele c\u00edrculo virtuoso. Em primeiro lugar porque, ainda que as empresas brasileiras (nacionais, estatais e multinacionais) baseassem sua estrat\u00e9gia de inova\u00e7\u00e3o em P&amp;D, seria muito pouco o recurso que alocariam para parcerias com as universidades. E, em segundo, mesmo que isso ocorresse, a redu\u00e7\u00e3o do custo das IFES para o Estado seria desprez\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, como qualquer pol\u00edtica p\u00fablica, \u00e9 prov\u00e1vel que o programa procure induzir um comportamento virtuoso junto aos atores envolvidos. E \u00e9 por isso que afirma que um \u201cecossistema de inova\u00e7\u00e3o pujante nas IFES\u201d seria capaz de gerar um \u201cambiente de neg\u00f3cios favor\u00e1vel \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e consolida\u00e7\u00e3o de&nbsp;startups\u201d.<\/p>\n<p>De novo uma compara\u00e7\u00e3o com os EUA ajuda a avaliar a probabilidade de que isso venha a ocorrer.&nbsp;<\/p>\n<p>O que se indicou acima n\u00e3o significa que nos Estados Unidos o resultado da pesquisa universit\u00e1ria n\u00e3o seja essencial para a inova\u00e7\u00e3o. Um indicador dessa import\u00e2ncia prov\u00e9m tamb\u00e9m da National Science Foundation. Mais de 50% dos mestres e doutores l\u00e1 formados em \u201cci\u00eancias duras\u201d (Engenharia, F\u00edsica, Biologia, etc.), por serem imprescind\u00edveis para o lucro e a competitividade das empresas, s\u00e3o por elas contratados para realizar P&amp;D. De fato, o que nos pa\u00edses avan\u00e7ados \u00e9 importante para as empresas \u00e9 o conhecimento incorporado nos alunos que na universidade aprenderam a pesquisar.<\/p>\n<p>No Brasil, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 absolutamente distinta. O conhecimento resultante da pesquisa universit\u00e1ria que \u00e9 incorporado no pessoal formado \u00e9 muito pouco relevante para as empresas.&nbsp;<\/p>\n<p>De acordo com a CAPES, no per\u00edodo de 2006 a 2008, formamos aqui 90 mil mestres e doutores em \u201cci\u00eancias duras\u201d. O que ent\u00e3o ocorria sugeria que, se as coisas funcionassem aqui como rezam os manuais da Economia da Inova\u00e7\u00e3o em que se baseiam os fazedores da pol\u00edtica cognitiva, isso deveria induzir as empresas a inovar realizando P&amp;D. E, se fosse leg\u00edtima a compara\u00e7\u00e3o com pa\u00edses como os EUA, 45 mil seriam contratados para realizar P&amp;D em empresas.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas aqui as coisas s\u00e3o diferentes: desses 90 mil profissionais, que, como no exterior, s\u00e3o muito bem formados mediante a pesquisa universit\u00e1ria para realizar a P&amp;D empresarial, apenas 68, segundo a PINTEC-IBGE, foram contratados pelas empresas para trabalhar com P&amp;D.<\/p>\n<p>Embora isso j\u00e1 evidencie a escassa probabilidade da cria\u00e7\u00e3o daquele \u201cambiente de neg\u00f3cios favor\u00e1vel\u201d de que fala o programa, cabe avan\u00e7ar indicando que o mesmo vale no que diz respeito \u00e0 probabilidade de que ele induza uma mudan\u00e7a no comportamento dos atores.<\/p>\n<p>H\u00e1 fatores estruturais, a todo momento refor\u00e7ados pelo mercado, que muito dificilmente, num pa\u00eds capitalista (ainda que submetido a um r\u00edgido planejamento central), poder\u00e3o ser alterados mediante a a\u00e7\u00e3o do Estado.&nbsp;<\/p>\n<p>Essa afirma\u00e7\u00e3o ganha for\u00e7a se considerarmos a nossa ancestral depend\u00eancia cultural e o estilo euroc\u00eantrico (e, depois da segunda guerra, norte-americano) de organiza\u00e7\u00e3o social que adotamos. Essa nossa \u201ccondi\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica\u201d faz com que praticamente tudo o que se fabrica aqui no \u201cSul\u201d, na periferia do capitalismo, j\u00e1 tenha sido antes produzido no \u201cNorte\u201d. As exce\u00e7\u00f5es bem conhecidas confirmam a regra: as empresas \u201cbrasileiras\u201d, por serem dotadas de perfeita racionalidade econ\u00f4mica, n\u00e3o realizem P&amp;D. Elas preferem inovar, sobretudo a partir do abandono da industrializa\u00e7\u00e3o via substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es, via aquisi\u00e7\u00e3o de tecnologia j\u00e1 desenvolvida. Em especial, a incorporada em m\u00e1quinas e equipamentos, como revelam 80% das inovadoras pesquisadas pela PINTEC-IBGE.<\/p>\n<p>Novamente, para avaliar a probabilidade de sucesso do Programa, nos parece conveniente um \u201cpar\u00eanteses hist\u00f3rico\u201d\u2026<\/p>\n<p>Nossa elite cient\u00edfica vem declarando h\u00e1 mais de seis d\u00e9cadas que, atrav\u00e9s da pol\u00edtica cognitiva que ela prioriza, \u00e9 poss\u00edvel induzir os empres\u00e1rios \u201catrasados\u201d a fazer (e gastar mais em) P&amp;D. Afinal, segundo ela idealiza, essa \u00e9 a forma como eles devem atuar para ter mais lucro e se tornar competitivos. Para isso ocorrer, eles consideraram que era necess\u00e1rio, por um lado, formar profissionais capazes de realizar P&amp;D. E, por outro, \u201cacostumar\u201d a empresa a interagir com a universidade.<\/p>\n<p>A primeira condi\u00e7\u00e3o vem sendo alcan\u00e7ada. Contrastando flagrantemente com o resto do nosso sistema educacional, a p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o e a pesquisa universit\u00e1ria brasileira, quando avaliada pelos crit\u00e9rios que usam os pa\u00edses avan\u00e7ados, est\u00e3o entre as melhores do mundo. O que faculta \u00e0 nossa lideran\u00e7a cient\u00edfica uma alegada sensa\u00e7\u00e3o de dever cumprido, e faz com que se sinta autorizada a reivindicar a prerrogativa de receber recursos para continuar \u201cfazendo a sua parte\u201d.&nbsp;<\/p>\n<p>Mas, uma parcela crescente da nossa comunidade de pesquisa (e at\u00e9 dessa lideran\u00e7a) reconhece que \u00e9 irrealista esperar que a segunda condi\u00e7\u00e3o, que permitiria que o resultado do seu trabalho fosse aproveitado pelas empresas para se tornarem inovadoras e competitivas e que terminasse beneficiando o povo que paga seu sal\u00e1rio, se verifique. Ela j\u00e1 percebeu tamb\u00e9m que o consider\u00e1vel, longevo e reiterado esfor\u00e7o do Estado, de mediante \u201cincubadoras\u201d de empresas e outros arranjos, aclimatar professores e alunos \u201cempreendedores\u201d ao mercado, tem sido em v\u00e3o; ou muito diminuto face ao tamanho do problema que seus l\u00edderes dizem poder equacionar. E que, por isso, a prerrogativa auto atribu\u00edda daquela elite n\u00e3o pode ser considerada um direito a ser assegurado por um programa que reedita antigas cren\u00e7as do neoliberalismo local.&nbsp;<\/p>\n<p>Mais al\u00e9m do que isso: a comunidade universit\u00e1ria est\u00e1 sinalizando a escassa viabilidade de que o Programa possa vir a induzir uma mudan\u00e7a no comportamento dos atores envolvidos; ainda mais num ciclo de prolongada retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, quando os empres\u00e1rios ficam ainda mais arredios a qualquer investimento \u201cinovador\u201d, seja cognitivo ou, muito menos, real.&nbsp;<\/p>\n<p>Para terminar, invocamos nossos fil\u00f3sofos mais aut\u00eanticos. Como diria o Garrincha: para que o programa consiga a aproxima\u00e7\u00e3o da universidade p\u00fablica com o mercado, \u00e9 preciso combinar com as empresas habilitadas para jogar esse jogo! Antecipando-nos ao que cobraria o Dad\u00e1 Maravilha, prometemos que depois de analisar a problem\u00e1tica que evidencia seu prov\u00e1vel fracasso, vamos mostrar a \u201csolucion\u00e1tica\u201d. Mas isso vai ter que ficar para outra vez\u2026<\/p>\n<p><em>Renato Dagnino&nbsp;faz parte do Departamento de Pol\u00edtica Cient\u00edfica e Tecnol\u00f3gica da Unicamp;&nbsp;Wagner Rom\u00e3o&nbsp;\u00e9 presidente da ADUNICAMP; e&nbsp;Rogerio Bezerra da Silva&nbsp;\u00e9 do Movimento pela Ci\u00eancia e Tecnologia P\u00fablica.&nbsp;Publicado originalmente no&nbsp;Le Monde Diplomatique Brasil.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><strong>Fonte: Meu Jornal &#8211; ANDES-SN<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em artigo publicado no Le Monde Diplomatique Brasil, Renato Dagnino, Wagner Rom\u00e3o e Rog\u00e9rio Bezerra da Silva mostram como o programa Future-se, lan\u00e7ado pelo governo federal, est\u00e1 desconectado da realidade n\u00e3o s\u00f3 das universidades brasileiras, mas de outras na\u00e7\u00f5es, principalmente dos Estados Unidos, que t\u00eam grande desenvolvimento tecnol\u00f3gico. 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