{"id":3421,"date":"2018-02-27T10:30:14","date_gmt":"2018-02-27T13:30:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.adufla.org.br\/site\/?p=3421"},"modified":"2021-03-22T22:46:58","modified_gmt":"2021-03-23T01:46:58","slug":"mudancas-no-ensino-medio-retiram-direitos-dos-estudantes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/adufla.org.br\/site\/noticias\/mudancas-no-ensino-medio-retiram-direitos-dos-estudantes\/","title":{"rendered":"Mudan\u00e7as no Ensino M\u00e9dio retiram direitos dos estudantes."},"content":{"rendered":"<p><strong>Muito diferente do que \u00e9 disseminado na m\u00eddia pelo governo federal, a t\u00e3o propagada \u201cReforma\u201d\u00a0o Ensino M\u00e9dio ir\u00e1 aumentar as desigualdades na educa\u00e7\u00e3o.<\/strong><\/p>\n<p>Pensar e repensar o Ensino M\u00e9dio e identificar sua situa\u00e7\u00e3o de crise se tornou lugar comum. Embora a Educa\u00e7\u00e3o em todos os n\u00edveis seja objeto de cr\u00edtica, parece-nos que na dire\u00e7\u00e3o do Ensino M\u00e9dio os dedos est\u00e3o mais raivosos. Entender porque esta etapa da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica \u00e9 o alvo preferencial, nos ajudaria a entender a recorr\u00eancia da crise.<\/p>\n<p>Entre 2003 e 2013, vinha sendo constru\u00edda uma concep\u00e7\u00e3o de Ensino M\u00e9dio, que procurava restaurar as linhas mestras da Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o (LDB) para esta etapa da Educa\u00e7\u00e3o B\u00e1sica, apontando para a integra\u00e7\u00e3o e integralidade no processo de forma\u00e7\u00e3o dos jovens e adultos, mesmo que num processo moroso que n\u00e3o atendeu os nossos anseios.<\/p>\n<p>No entanto, o esfor\u00e7o desses \u00faltimos anos sofreu uma interven\u00e7\u00e3o brusca e radical. E vem, com importante estrat\u00e9gia de marketing, construindo uma nova proposta de Ensino M\u00e9dio, retomando o ide\u00e1rio dos anos 1990, agora recheado de concep\u00e7\u00f5es de homem e de rela\u00e7\u00f5es humanas pr\u00e9-modernas. Essa proposta \u00e9 absolutamente consonante com o que se projeta nas novas formas de regula\u00e7\u00e3o do trabalho, ou na sua desregula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O esfor\u00e7o do atual grupo no poder encontra eco entre o empresariado da educa\u00e7\u00e3o e pode ter car\u00e1ter meramente comercial: o Ensino M\u00e9dio pode se constituir em bom investimento quer seja pela mera coopta\u00e7\u00e3o de cliente, vendendo facilidades e perspectivas de sucesso, quer seja pela apropria\u00e7\u00e3o dos recursos p\u00fablicos atrav\u00e9s de bolsas. No entanto, o constituir-se em territ\u00f3rio de disputa ideol\u00f3gica privilegiado \u00e9 que torna o Ensino M\u00e9dio t\u00e3o atraente. A\u00ed se produzir\u00e1 as novas gera\u00e7\u00f5es de trabalhadores, fazendo desaparecer a experi\u00eancia hist\u00f3rica da classe.<\/p>\n<p>A reforma chega ent\u00e3o com reformadores de ocasi\u00e3o, mas principalmente pelos setores que viram o projeto dos anos 1990 ser suplantado com a crise do modelo neoliberal e que hoje ressurge com grande apoio de setores ultraconservadores.<\/p>\n<p>Na tentativa de construir legitimidade para a proposta, o discurso para a sociedade e aos poss\u00edveis estudantes se faz exatamente em seu aspecto reducionista.<\/p>\n<p>Importante destacar que esse processo de constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada de aleat\u00f3rio ou ligeiro. Esta reforma expressa a posi\u00e7\u00e3o dos grupos que hegemonizaram o sistema educacional nos anos 1990. N\u00e3o surge de um dia para o outro, no alvorecer do golpe, na forma como foi apresentada ao Congresso Nacional, no dia 22 de setembro de 2016, a Medida Provis\u00f3ria (MP) 746\/16. Ela \u00e9 resultado de um trabalho de resist\u00eancia dos representantes dos interesses econ\u00f4micos nacionais e internacionais, no confronto com uma larga tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica que enfatizava a Educa\u00e7\u00e3o como direito e a projetava para o desenvolvimento integral no processo de humaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o por acaso no movimento pr\u00f3-impeachment apareciam cartazes atacando Paulo Freire e que nos provocou risos (n\u00e3o era para rir).<\/p>\n<p>Os movimentos que culminaram na Medida Provis\u00f3ria \u2013 apresentada no final do ano retrasado e, que depois de tramitada, se materializou na Lei n\u00ba 13.415, aprovada em 16 de fevereiro (\u201cReforma\u201d do Ensino M\u00e9dio) e homologada na sequ\u00eancia pelo ocupante da presid\u00eancia \u2013 caminha no sentido oposto do que vinha se projetando no \u00faltimo dec\u00eanio. Ela \u00e9, na verdade, a express\u00e3o de um longo processo de disputa que ganhou nuances durante os movimentos de redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, na disputa pela hegemonia, entre setores liberais e outros de corte democr\u00e1tico popular. No meio desta disputa, grupos ultraconservadores e fisiol\u00f3gicos de todas as matizes ganharam posi\u00e7\u00f5es, pois no Congresso o voto \u00e9 moeda de troca.<\/p>\n<p>Os movimentos que levaram o atual grupo ao poder trazem uma narrativa que j\u00e1 nos \u00e9 familiar. \u00c9 a repeti\u00e7\u00e3o da monoc\u00f3rdica trilha sonora dos anos 1990. A \u00eanfase em Portugu\u00eas e Matem\u00e1tica responde \u00e0 exig\u00eancia b\u00e1sica para que trabalhador possa se inserir no mundo do trabalho (mercado desregulado). Uma forma\u00e7\u00e3o m\u00ednima para atender a quem ocupar\u00e1 os lugares perif\u00e9ricos do mercado. O decantado processo de globaliza\u00e7\u00e3o que se traduziu numa criminosa concentra\u00e7\u00e3o de riqueza ter\u00e1 territ\u00f3rios pr\u00f3prios de produ\u00e7\u00e3o e controle.<\/p>\n<p><em><strong>Sandra Regina Garcia<\/strong> \u00e9 doutora em Educa\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Paran\u00e1 (UFPR) e docente da Universidade Estadual de Londrina (UEL\/PR), com atua\u00e7\u00e3o na \u00e1rea de Pol\u00edticas Educacionais.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muito diferente do que \u00e9 disseminado na m\u00eddia pelo governo federal, a t\u00e3o propagada \u201cReforma\u201d\u00a0o Ensino M\u00e9dio ir\u00e1 aumentar as desigualdades na educa\u00e7\u00e3o. Pensar e repensar o Ensino M\u00e9dio e identificar sua situa\u00e7\u00e3o de crise se tornou lugar comum. 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